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Reportagem Publication logo June 26, 2020

Povos da floresta lutam para sobreviver

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Foto de Thiago Mendonça/Valor. Brasil, 2020.
Para Ailton Krenak, a mudança climática "traz outros eventos tão brutais quanto a pandemia, que podem acabar com a gente até 2050." Foto de Thiago Mendonça/Valor. Brasil, 2020.

Nunca houve paz para os povos da floresta. Mas a calamidade do presente assusta. Os perigos não são só o homem branco e suas queimadas, invasões territoriais e mortes. A ameaça da covid-19 chegou à floresta sem nenhum bloqueio ou resposta governamental.

Abandonados à própria sorte, os indígenas se organizam. A luta agora é para se manter vivo.

“É uma emergência mortal. A gente precisa primeiro sair dessa. Se for para se organizar, é se organizar para depois disso ter segurança alimentar. Porque parece que, em todas as guerras, o inimigo deixa você sem comida, sem água —e pronto. Te isola ete mata, não é assim?”, diz Ailton Krenak, uma das mais destacadas lideranças indígenas das últimas quatro décadas.

Em 2019, ele esteve entre os escritores mais vendidos no Brasil com “Ideias para Adiar o Fim do Mundo” (Companhia das Letras), compêndio de três conferências que instigam a pensar o mundo contemporâneo e a forma como lidamos com a natureza e seus habitantes.

Desde cedo Krenak mergulhou na luta pelo direito à vida tradicional dos povos da floresta. Tornou-se nacionalmente conhecido ao defender os direitos indígenas na Assembleia Constituinte de 1988, quando pintou o rosto com a tinta preta do jenipapo enquanto, da tribuna, fez um discurso que ficou para a história como um dos momentos mais marcantes na elaboração da Carta Magna.

Pode parecer exagero retórico o uso que ele faz de imagens de guerra, mas é realista: não há entre todas as ações do atual governo uma única que seja favorável à vida na floresta. De propostas de mineração em terras indígenas a projetos de revisão ou recategorização das reservas (não só de índios, mas também de extrativistas), do desmonte do aparelho estatal responsável pela fiscalização ambiental ao sucateamento do sistema de saúde indígena mesmo diante de uma pandemia, tudo conspira contra os direitos impressos na Constituição. Não é de surpreender, já que, desde a campanha presidencial, Jair Bolsonaro prometia acabar com as reservas indígenas, em meio a discursos preconceituosos sobre o modo de vida desses povos.

Em linha com as ameaças constantes do governo incentivados por elas, houve aumento significativo de queimadas, invasões territoriais por fazendeiros e garimpeiros e assassinatos de lideranças das causas indígenas.

Esses acontecimentos levaram à retomada da Aliança dos Povos da Floresta, movimento criado nos anos 1980 que uniu seringueiros e indígenas, sociedades que eram tradicionalmente inimigas, em torno de um ideal comum de viver em equilíbrio com a floresta. À volta da Aliança foi anunciada em janeiro, quando o lendário cacique Raoni Metuktire usou do respeito conquistado ao longo de seus 90 anos para reunir mais de 60 povos indígenas no Xingu. Ali presentes, a ativista Angela Mendes, filha do mítico Chico Mendes (1944-1988), e Julio Barbosa, presidente do Conselho Nacional das Populações Extrativistas, representavam os seringueiros.

O festejado encontro entre os povos da floresta não era óbvio em sua origem. Seu nascimento se deu principalmente no Acre, nos anos finais da ditadura militar (1964-1985) em um momento em que grupos agropecuários do Sudeste e Sul do país chegavam à região e começavam um processo de derrubada da floresta e expulsão dos habitantes locais.

Os seringueiros, que viveram por décadas submetidos à situação análoga à escravidão, encontravam-se abandonados nos seringais após o declínio da borracha. Permaneciam nas terras, pois tinham como destino pior a vida nas cidades, onde restava apenas posições marginais. Famílias que foram expulsas de suas terras de origem se desestruturaram. Para muitas mulheres vindas dos seringais restou escolher entre a prostituição ou a fome.

Os novos fazendeiros que passaram à ocupar as terras não viam utilidade nos seringueiros. Pelo contrário, eram um obstáculo para a derrubada das matas que seriam convertidas em pasto, Entre os indígenas, muitos viviam havia décadas nos seringais, submetidos à mesma situação análoga à escravidão e ao mesmo destino dos extrativistas. Alguns povos conseguiram isolar-se floresta adentro, fugindo da violência. Mas, à medida que a agricultura moderna avançava, começaram a sentir-se ameaçados.

Havia entre esses dois povos da floresta mágoas e rivalidades de muitas décadas, mas elas foram superadas aos poucos, quando todos perceberam que eram submetidos à mesma condição de exploração. Colaboraram para essa percepção os padres ligados à Teologia da Libertação, que apoiavam a sindicalização e organização comunitária, aproximando os seringueiros dos sindicatos rurais da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag).

O jornalista Elson Martins, na época correspondente do jornal "O Estado de S. Paulo” no Acre, estava presente no dia da fundação do sindicato de Brasileia, No meio da organização, ele percebeu um jovem agitado, que conversava com os demais seringueiros e ajudava os que não sabiam ler a preencherem suas fichas de cadastro. Pensou em um primeiro momento que pudesse ser um infiltrado, pois seu rosto era desconhecido, ainda vigorava regime militar, e havia no ar certa tensão. Esse jovem seringueiro se chamava Chico Mendes e acabou eleito secretário-geral do sindicato por saber ler e escrever, coisa rara naquele meio. Ele era de uma cidade próxima, Xapuri, que se tomaria internacionalmente conhecida anos depois, justamente por ser o local onde ele seria assassinado.

Muitos amigos o viam como um predestinado, reportando-se a seu curioso processo de alfabetização. Euclides Távora, militar que participara da coluna Prestes, optou por não voltar para casa após ela dispersar-se na Bolívia. Atravessou a fronteira e se estabeleceu em Xapuri. Como não sabia extrair a borracha, sua mulher saía cedo para trabalhar, e ele cuidava dos afazeres domésticos. Távora tomou-se amigo do pai de Chico Mendes e se dispôs a ensinar o filho do compadre a ler e escrever.

Nas aulas, ele passava sua visão de mundo e falava de sindicatos, partidos e lutas políticas. Anos depois, quando Mendes soube da criação do sindicato na cidade vizinha de Brasileia, o imaginário ganhou vida. Conhecia bem a dura realidade dos seringais e acreditava que a organização popular poderia modificá-la.

Mendes foi um dos primeiros a notar que havia mais pontos em comum do que diferenças entre os habitantes da floresta. Os dois povos viveram situação análoga à escravidão (em um sistema em que eram obrigados a adquirir e consumir exclusivamente os produtos trazidos pelo patrão, compra que resultava maior que seus salários) e agora sentiam-se ameaçados pela expansão do agronegócio.

No fim dos anos 1970, ele e outros seringueiros criaram os empates, tática de impedir o desmatamento a partir de um cerco pacífico composto por um grande número de pessoas em tomo dos contratados para a derrubada das árvores. Era uma tática de persuasão, evitando ao máximo o confronto físico.

Mas Chico Mendes concluiu que precisaria sair do Acre para evidenciar as lutas pela preservação ambiental. Começou a viajar pelo Brasil contando a história dos seringueiros. Em uma dessas viagens encontrou Ailton Krenak. Ele nascera em uma aldeia no norte de Minas que perdera a maior parte de suas terras para os fazendeiros da região, com o apoio da ditadura, Na terra de Krenak, o instrumento de persuasão dos militares foi a construção de um “reformatório”, eufemismo para designar uma cadeia indígena criada em suas próprias terras onde eram obrigados a trabalhar gratuitamente, em regime análogo à escravidão, Aos conflitos com os fazendeiros, que vinham de muitas décadas, se somaram a tortura e repressão dos militares.

Seu pai já tinha fugido dos conflitos da região, migrando para São Paulo. Quando Krenak cresceu, decidiu que estava cansado da condição de peregrino: “Até os 17 anos de idade eu acompanhei meu pai fugindo. Dos 17 anos de idade para frente, eu finquei o pé e falei: 'Pera aí, cadê os outros índios? Cadê os caiová do Mato Grosso, os guarani?”.

“Tinha uma liderança histórica do movimento indígena, Marçal de Souza Tupá-i, do Mato Grosso do Sul. Ele foi assassinado no quintal da casa, no terreiro da aldeia, por pistoleiros que estavam começando esse ciclo que deu mais tarde no agronegócio. Isso há 40 anos, em 1979, diz. “E aquela violência toda se espalhando pelo país, com os índios sendo assassinados, eu me perguntei: 'Por que a gente não se organiza contra isso?” Krenak se juntou a outros indígenas de sua geração e começou a organizar uma militância empedernida pelos direitos dos povos originários e suas formas de vida.

Nessas andanças, ajudando a organizar as diversas etnias espalhadas pelo Brasil, seu caminho cruzou o de Chico Mendes, e, do encontro desses dois personagens seus aliados, surgiu a Aliança dos Povos da Floresta. Naquele momento, os indígenas do Acre começavam a reconquistar parte de suas terras e sua percepção era a mesma dos seringueiros, que também viviam na floresta: tinham um inimigo em comum, aqueles que ambicionavam derrubar as matas. Começaram os encontros, reuniões, ações conjuntas e conversas.

A principal dificuldade nessa união estava em curar as feridas do passado. Raimundão, primo de Mendes e uma das mais respeitadas lideranças entre os seringueiros, hoje com 75 anos, descreve a Aliança como uma estratégia para mostrar força diante dos grandes fazendeiros. Mas era preciso deixar claro para os indígenas que os seringueiros “renunciavam” aos crimes de seus antepassados.

“O nosso povo anterior, não os nossos pais, mas os nossos avós para trás, mataram muito índio a mando dos patrões da borracha. Que era justamente para limpar áreas de seringais, para o branco cortar seringa. Porque os índios não iam cortar seringa para vender borracha para patrão. Aconteceram massacres. É os índios tinham muito sentimento por isso”, diz, “Mas, no momento de dor, de aflição dos dois, foi fácil a criação da Aliança”

Francisco Piyáko, liderança indígena do povo ashaninka, lembra a dificuldade de convencer os mais velhos a participar desse acordo; “Foi difícil fazer essa passagem, porque antes de se fazer a Aliança a relação era essa: o pessoal se armava nos seringais, ia botando fogo nas malocas, queimando, matando.Então a gente via os homens brancos matando a gente. Eu lembro muito que o meu pai falava que a gente estava tentando acreditar”,

Mendes observou a forma como os índios organizavam seu território. Pensava no futuro das famílias de seringueiros, que tinham um modo de vida próprio, que não era nem o do indígena, nem o do trabalhador rural Krenak lembra da conversa em que Mendes falou pela primeira vez sobre criar as reservas extrativistas:

— Krenak, os índios têm propriedade da terra?

— Não, náo tém.

— Então como é que vocês conseguem ter o território?

— A gente consegue porque já ocupava ele antes de qualquer outro estatuto. E mesmo esses caras que fizeram título em cima deles, a gente derruba, porque, pela história de nosso país, desde a colônia esses lugares são terras indígenas. Nós não temos propriedade deles, nós temos o direito de viver neles, nós temos o usufruto deles.

— É isso que a gente vai lutar junto! Nós vamos lutar para ter reserva extrativista. Tem reserva indígena, e a gente quer criar à reserva extrativista. A gente quer ter o mesmo estatuto,

Reservas indígenas já existiam em outros lugares do mundo. Mas reservas extrativistas são uma criação brasileira. Elas deram origem depois a outros tipos de reservas, como as marítimas, ocupadas por pescadores tradicionais e outras variadas formas de extrativismo vegetal espalhadas pelo Brasil. É a nossa grande contribuição para a defesa do meio ambiente e foi a maior bandeira de luta dos Povos da Floresta.

Chico Mendes não chegou a vivenciar a criação das reservas que propusera. No fim de 1988, pouco depois da Assembleia Constituinte, foi assassinado a mando de fazendeiros. Acreditavam que sua morte interromperia a luta dos povos tradicionais. Mas ele já se tomara uma figura de projeção internacional, após seu assassinato TVs de diversos países ocuparam a pequena Xapuri para noticiar sua despedida trágica. Pressionado, o governo brasileiro acelerou a criação das Reservas Extrativistas. Uma das mais conhecidas leva seu nome: a reserva Chico Mendes, que completou 30 anos em março e hoje é uma das áreas que estão ameaçadas por uma tentativa de mudança de seu estatuto.

Angela Mendes, a filha mais velha de Chico Mendes, teme que a dificuldade de mobilização na pandemia seja aproveitada pelo governo para impor as mudanças, contra a vontade de seus habitantes. "A situação que está ruim tende a se agravar. Na verdade, para a boiada do [Ricardo] Salles [ministro do Meio Ambiente], a porteira já está aberta desde que o Bolsonaro assumiu. Agora é o momento propício para eles fazerem passar esses projetos, Por mais que a gente se mobilize, não chega a ter uma incidência política neste momento de pandemia. Porque a gente tem que ficar isolado, não consegue se mobilizar, não consegue se movimentar, se manifestar”, diz Angela.

“E essas coisas vão passando, Nós estivemos com o presidente da Câmara [Rodrigo Maia, DEM-RJ] em março, durante a sessão solene que foi feita em homenagem aos 30 anos da reserva Chico Mendes. Ele foi muito dúbio. Não disse que sim, não disse que não. O nosso pedido foi que ele não deixasse ir para votação nenhum projeto de lei que prejudicasse territórios de uso comum.”

Angela aponta o senador Marcio Bittar (PMDB-AC) ca deputada federal Mara Rocha (PSDB-AC) como os articuladores para a descaracterização das reservas do Acre. Procurados, Rodrigo Maia, Mara Rocha co Ministério do Meio Ambiente não responderam ao pedido de entrevista até o fechamento desta edição, Bittar diz que a existência das reservas condena o Acre à miséria e que ele está agindo no interesse da maioria dos seringueiros que vivem na reserva: “Vai dentro da reserva Chico Mendes, que leva o nome dele, e pergunta para as pessoas que estão lá dentro se querem viver de extrativismo vegetal. Ninguém quer viver disso”.

A filha de Mendes discorda. Cita uma manifestação ocorrida em março em Brasilia envolvendo 500 famílias, em apoio à manutenção da reserva nos moldes atuais: “Se lá dentro só existisse um único morador que não concorda com a mudança, ele já deveria ser ouvido”.

“Imagina na situação atual, onde a maioria dos moradores, todos os que participaram da criação da reserva extrativista, que conhecem a realidade, todos eles são contra mudar, Quem é a favor são aqueles que foram entrando depois, de forma ilegal e querem se regularizar. E é com esse povo que esses parlamentares do Acre têm compromisso. Com os ilegais, com os infratores.”

Além de resistir à possibilidade de mudanças na legislação e a um novo período de queimadas que tende a ser tão ou mais grave que o do último ano, quando o mundo todo colocou-se em alerta, os povos da floresta organizam-se como podem para sobreviver à pandemia. Toya Manchineri, que é um dos coordenadores da Coica (organização indígena formada pelos nove países da região amazônica) conta que a Aliança dos Povos da Floresta e organizações indígenas “estão trabalhando na captação de recursos para combate e prevenção da covid, Já existe muita contaminação nos territórios indígenas. Na Amazônia são 170 povos. Destes, 79 já têm pessoas contaminadas”.

Trata-se de uma corrida contra o tempo para que a tragédia não atinja a maioria. Lideranças históricas como Mario Puyanawa e Paulinho Paiakã morreram recentemente com o vírus. O índice de mortes entre indígenas tem sido muito maior do que a média brasileira, Uma pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) em conjunto com a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), divulgado na última segunda-feira, aponta que a taxa de mortalidade pela covid-19 entre os indígenas da Amazônia é 150% maior do que a média do resto do país. Sem poder contar com o poder público, as organizações dos povos da floresta procuram se estruturar junto a outros grupos da sociedade civil em arranjos locais e nacionais.

O horizonte atual de destruição assusta. Mas a história desses povos é a prova de sua resiliência. Pedro Casaldáliga, antigo bispo da Prelazia de São Félix do Araguaia, dizia que a maior qualidade do povo brasileiro é sua teimosia em resistir. A luta tem muitos sentidos, que nem sempre podem ser compreendidos pelos que vivem na cidade. A terra para eles não é só um território — ela estrutura um modo de estar no mundo.

A luta pela terra, para Raimundão, é a luta por liberdade: “Liberdade, para mim, é falar aquilo que eu tenho consciência que é verdade. Liberdade, para mim, é eu ter direito de viver na minha casa, com minha família, sem estar sendo incomodado por ninguém. Liberdade, para mim, é eu ter oportunidade de ver meus companheiros tendo uma relação de vida igual à minha, porque eu aprendi que a gente não deve ser individualista, quanto mais coletivo, melhor, Liberdade é eu ter o direito de ir e de vir para onde e de onde eu quiser”.

Liberdade que só se tomou concreta para esse velho seringueiro, cuja infância e juventude foi condenada pelo trabalho análogo à escravidão, depois da criação da reserva Chico Mendes, onde vive. Angustiado com o futuro, carrega esperança de que a sociedade brasileira compreenda a importância da preservação de suas florestas.

Quem sabe o isolamento seja esse momento de reflexão? Ailton Krenak é reticente com essa possibilidade de aprendermos algo com a pandemia: “O que a gente pode aprender é uma coisa, o que a gente vai aprender é outra. A gente pode aprender que, se a gente

continuar na terra do jeito que estamos, a gente não vai durar muito. E a mudança climática traz outros eventos tão brutais quanto a pandemia, que podem acabar com a gente até 2050. Não sou eu que estou inventando, basta ver os relatórios do painel do clima. Se a gente escapar da pandemia, não tem garantia nenhuma de que a gente vai continuar vivendo aqui na terra, tá bom? Entre tantas aflições e dúvidas, a única certeza de seringueiros e indígenas é que este é um tempo de lutas, e que não haverá paz para os povos da floresta.

Este artigo foi escrito com o apoio do Pulitzer Center e Rainforest Journalism Fund. Resultou também em uma websérie sobre a Aliança dos Povos da Floresta, que pode ser vista no canal do YouTube do “Le Monde Diplomatique”.